Artigo: Maria e o cuidado com o planeta

Ir. Afonso Murad
Fonte: Academia Marial – Santuário Nacional de Aparecida

Recentemente, o Papa Francisco publicou a Encíclica “Laudato si” (LS), sobre o cuidado da nossa “Casa Comum”. O título se baseia na primeira frase do “Cântico das Criaturas”, de São Francisco de Assis. Ele lança um apelo a toda a humanidade, para mudar de atitudes, a nível pessoal e coletivo. Uma verdadeira conversão ecológica! E, ao final deste documento, o Papa se refere a Maria com muito carinho. Vamos ler e meditar.

Maria, a mãe que cuidou de Jesus, agora cuida deste mundo ferido com carinho e preocupação materna. Assim como chorou com o coração trespassado a morte de Jesus, assim também agora ela se compadece do sofrimento dos pobres crucificados e das criaturas deste mundo exterminadas pelo poder humano.

Maria vive, com Jesus, completamente transfigurada, e todas as criaturas cantam a sua beleza. É a Mulher vestida de sol, com a lua debaixo dos pés e com uma coroa de doze estrelas na cabeça (Ap 12,1). Elevada ao céu, Maria é Mãe e Rainha de toda a criação. No seu corpo glorificado, juntamente com Cristo ressuscitado, parte da criação alcançou toda a plenitude da sua beleza.

Maria não só conservava no seu coração toda a vida de Jesus, que guardava cuidadosamente (cf. Lc 2,51), mas agora compreende também o sentido de todas as coisas. Por isso, podemos pedir-lhe que nos ajude a contemplar este mundo com um olhar de mais sabedoria (LS 241).

O Papa Francisco também nos recorda a figura de São José. Com o seu trabalho e presença generosa, cuidou e defendeu Maria e Jesus e livrou-os da violência dos injustos, levando-os para o Egito.

No Evangelho, José aparece como um homem justo, trabalhador e forte. Mas a sua figura manifesta também uma grande ternura, própria de quem é verdadeiramente forte, atento à realidade para amar e servir humildemente. Por isso, foi declarado protetor da Igreja universal.

Também Ele nos pode ensinar a cuidar, pode motivar-nos a trabalhar com generosidade e ternura para proteger este mundo que Deus nos confiou (LS 242).

Que José e Maria nos inspirem para cuidar da água, do solo, do ar, das plantas, dos animais e dos seres humanos. Maria, mãe da Ecologia, rogai por nós!

Fonte: Revista de Aparecida

Artigo: Nossa Senhora Aparecida, modelo de um povo

Por padre Luiz Carlos de Oliveira, C.Ss.R.
Fonte: Academia Marial – Santuário Nacional de Aparecida

 A Santa perdeu a cabeça
Celebrar a festa de N. Senhora Aparecida é celebrar o coração amoroso de Deus que se manifesta em Maria. A história do encontro da imagem em 1717 é uma lição e um milagre. Pela narrativa do tempo sabemos que, depois de uma pesca sem resultado, encontraram o corpo de uma imagem e logo depois encontraram a cabeça. Como que foi pescada a cabeça tão perto do corpo da imagem sendo que poderia ter sido levada pela corrente? Podemos ver aqui uma lição de amor. Maria perde a cabeça quando vê seus filhos reunidos em torno de si. Logo após o encontro destas duas partes, corpo e cabeça de uma imagem de Maria, houve uma pesca abundante para servir o almoço do excelente Dom Pedro de Almeida Portugal, chamado depois de Conde de Assumar.

Ele se dirigia a Minas para a derrama do ouro, isto é, cobrar o ouro que se devia ao rei de Portugal. Além do milagre da pesca temos o milagre da devoção. Já é um grande milagre que aquele pequeno objeto de barro cozido, que é símbolo da Mãe de Deus, possa reunir tantos milhões de pessoas por ano. Certamente ninguém vai atrás do barro, da estátua, mas atrás do grande amor de Deus manifestado por Maria que acolhe seus filhos, filhos de Deus. Não se sabe por que a imagem foi jogada no rio. Certamente pelo costume de desfazer-se das imagens quebradas. Por respeito joga-se no rio. Sabemos porque foi encontrada: para dar aos pescadores uma pesca abundante e ao povo um lugar abundante de graças. Ela perdeu a cabeça ao ser quebrada por um acidente. Agora parece perder a cabeça quando vê seus filhos em grandes multidões vêm ao seu encontro. Ela é a Mãe que olha distante vendo seus filhos vindo de longe.

Mulher gloriosa
Ela é a mulher gloriosa que é perseguida, mas defendida por Deus, pois o dragão, isto é, todos os que são do mal, procura destruir essa Mulher (Ap 12,12ª). Esta é a imagem da Igreja perseguida que vê seus filhos serem vítimas do mal que entrou no coração das pessoas. A Igreja perseguida é sinal da vitória de Cristo sobre o mal. Além destes há os que a desconhecem e desprezam continuando ferir seu coração com a espada (Lc 2,13ª). A serpente do mal vomitou um rio atrás dela, mas a terra veio em seu socorro.

Significa aqui que a Igreja não fica fora do mundo, mesmo se perseguida, pois ela continua sua missão de acolher a todos para redenção. Maria é mulher do povo e continua a sê-lo, pois a ela o povo recorre. A Igreja, mesmo no meio das perseguições e contradições, continua sua missão. Ela está vestida de sol porque é Cristo que lhe dá brilho e vitalidade. Como seu Senhor, a Igreja, quanto mais sepultada, mais força de ressurreição manifesta.

Diante de Deus, por nós
Cristo é o mediador e o intercessor junto do Pai. Une todo seu Corpo que é a Igreja nessa missão. Ele não age sem a Igreja. Por isso temos os sacramentos. Na Igreja, a missão de Maria é rezar por nós, como o fazem todos os cristãos que vivem na terra e os que estão na Glória. Tudo o que é realizado, o é pelo Corpo de Cristo e para o bem de todo Corpo. Por isso ela pode ser chamada de mediadora e intercessora.

Sua missão é ser intercessora: sempre está diante de Jesus, o Rei esplendoroso, suplicando: “Salva meu povo” como a rainha Ester. Ela continua na terra através de sua intercessão. Ela perde a cabeça quando vê os filhos chegando a sua casa. Ela os acolhe com o sorriso de mãe feliz. (Vejam bem o sorriso que tem a imagem de N. S. Aparecida – a que foi encontrada no rio Paraíba). Nada sem Cristo e tudo para Cristo. Viva a Mãe de Deus e nossa.

Artigo: Maria, o gênero inocente da humanidade

Ana Alice Matiello
Fonte: Academia Marial – Santuário Nacional de Aparecida

mariaO olhar da Virgem é o único olhar verdadeiramente infantil, o único verdadeiro olhar de criança que jamais se fixou em nossa vergonha, em nossa desgraça… Para implorá-la bem, é preciso sentir sobre si este olhar… que a faz mais jovem que o pecado, mais jovem que a raça da qual ela mesma procede; e ainda que seja Mãe pela graça…é também a caçula do gênero humano. (Georges Bernanos).

 

É próprio da inocência o não pensar em si, ela acompanha o coração como uma sombra que não se deixa capturar. A inocência, grosso modo, muitas vezes confundida com ingenuidade, infantilidade, etc., é obviamente o oposto de tudo isso e está, com toda a certeza, acima de todas as boas intenções que podem nascer nos corações humanos a partir de suas experiências entre o bem e o mal, como diz o Apóstolo Paulo: “Examinai tudo: abraçai o que é bom” [1]. O que distingue a inocência de todos os outros atributos, seja de ordem estética (ingenuidade) ou de ordem ética (o bom), é que ela pertence ao mistério de Maria, a primeira humana depois de Eva que não viveu somente na inocência, mas foi ela própria a inocência. Com Maria a inocência entrou novamente no mundo. Como relata o Evangelho de Mateus[2]: “José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois o que nela foi concebido vem do Espírito Santo”. Nisso, a Palavra também exorta-nos a não temer receber a Inocência por mãe.

A inocência é a arma mais doce e viva contra a astúcia, armadilha e cilada do “demônio”. Um coração cheio de desconfianças, maquinações, especulações, meios e fins tão presunçosos, será jogado para longe por um simples olhar da inocência, pois não há esperteza que consiga contaminá-la com a sagacidade do coração cheio de duplicidade. Mais difícil ainda é lhe causar qualquer dano, mesmo se mil e uma noites sejam vividas para este fim. Ela permanece… Imaculada!

A inocência longe de ser como a cegueira da maldade, é a única a ver a gravidade do mal não em termos competitivos mas gerador, pois a sua visão é fecunda. O que ela vê é simplesmente a possibilidade do amor onde ninguém mais o vê. A recusa categórica da possibilidade do amor, no seu grau mais elevado, é compreendida como o estado demoníaco da condição humana. Ou seja, a consciência de ter perdido um amor eterno torna-se um tormento demoníaco, e no ódio se volta contra o amor que lhe oferecera salvação. Tendo acolhido o amor eterno, Maria é a inocência que esmaga a cabeça da serpente: quanto mais ama, mais destrói a discórdia e a mentira do mal. Não há engenhosidade humana capaz de vencer seu doce olhar. Ver sua luz e não deixar-se amar por ele é pior ainda!

 

Ana Alice Matiello
Associada à Academia Maria de Aparecida. Mestra em Ciência da Religião – UFJF.

[1] 1 Tessalonicenses 5, 21.
[2] Mateus 1, 20.

Artigo: O Rosário – oração coroada de rosas e espinhos

Ana Alice Matiello
Academia Marial – Santuário Nacional de Aparecida

rosario_e_bibliaA prática de oração à Maria vem desde os tempos primórdios da Igreja, já era comum a recitação da palavra do anjo Gabriel: “Ave Maria! cheia de graça!” (Lc 1, 28), quando os cristãos desejavam venerar a mãe do Salvador. No entanto, é datada por volta dos séculos XII e XVI a evolução histórica do rosário. São Domingos (1170-1221) foi um dos maiores propagadores dessa prática de devoção. Mas é no século XV que temos o primeiro testemunho sobre a mudança do simples saltério da ave-maria para o saltério incorporado da meditação dos mistérios de Cristo. E em 1569 o papa Pio V, em sua bula Consueverunt romani Pontífices, “consagrou uma forma de rosário alcançado em um momento áureo da sua evolução, que substancialmente é a forma em uso nos dias de hoje”. (DM 1138).

O nome rosário vem do latim rosarius – relativo às rosas, e foi chamado assim devido à prática popular de coroar Maria com rosas no final do saltério. O valor espiritual do rosário consiste na característica de ser: uma oração simples e profunda. Uma oração contemplativa que educa o espírito humano à meditação dos mistérios da vida de Cristo, e sua intrínseca relação à compaixão de Maria nos momentos de alegria e dor. Uma oração catequética, pois apresenta e ensina, com um método simples, o núcleo do conteúdo da fé católica. Uma oração que respeita os ritmos da vida, uma vez que harmoniza a disposição corporal com o movimento do espírito que, por sua vez, produz frutos de paz e serenidade diante das tribulações da vida. Uma oração criativa que ajuda comparar os nossos sentimentos com os de Cristo durante a meditação de cada passo, desde o mistério da Encarnação até o mistério da Ressurreição. E, por fim, uma oração que introduz a liturgia por sua natureza comunitária, cristocêntrica e bíblica. É nesse sentido que o Papa Paulo VI diz no seu documento Marialis Cultus “O rosário é, por isso mesmo, uma prece de orientação profundamente cristológica” (MC 61).

Com as aparições de Nossa Senhora de Lourdes e Nossa Senhora de Fátima o rosário recebeu um olhar ainda mais vital, ainda mais urgente, ainda mais preciso! Os benefícios pessoais, comunitários e globais que se alcançam por meio dele têm revelado aos fiéis que a oração amorosa é graça abundante do mistério entre a mãe e o Filho em nossas vidas. Assim como as rosas têm seus espinhos, a coroa de rosas de Maria e a coroa de espinhos, que o nosso pecado deu ao seu Filho, se complementam numa só coroa – o Rosário.

 

Ana Alice Matiello   
Associada à Academia Marial de Aparecida e Mestra em Ciência da Religião -UFJF